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A palavra que me define. E ela define mesmo?

Devemos nos deixar sucumbir ao que queremos? E o que queremos, em determinado momento, é o que nos define?


Por exemplo, se uso uma idéia expressa em um livro bem falado agora, "Comer, rezar, amar", onde a autora, parafraseando um amigo, fala que "toda cidade tem uma palavra [e nós, como as cidades, também temos]", que palavra sou eu, então? Prazer? Não! (embora tenho ardentemente tentado ao menos descobrir o que me proporciona isto). No último ano, apesar de todo o processo que passei, e talvez por isto mesmo, tenho me dado doses suficientes de ócio. "Ócio? Mas você não estava na residência? E agora não está tentando conciliar o emprego, um curso que tanto quer, e o fim da residência, mesmo que a contragosto?"... Então, mas eu me dou ao luxo de simplesmente não fazer o que quero, no dia que quero. Claro que nem sempre, claro que não em tudo, e claro também que esta talvez não seja uma atitude inteligente. Mais uma vez, como já falei aqui anteriormente, eu deveria ser mais prática. Mas me permito fazer isto. Talvez até devesse ser menos permissiva comigo mesma. Tenho me visto em uma atitude não-permissiva com as pessoas (por incrível que pareça, provavelmente este é o meu maior momento de impaciência com outrem), mas muito persuasiva em relação a mim mesma. Todavia, apesar desta permissividade, não tenho vivido de forma a cultuar o prazer, em suas diferentes nuances, e, por isto mesmo, esta não é a minha palavra. Ao menos, nesse momento.

Então, qual seria a minha palavra? Talvez "Irritabilidade"? Ou "Egocentrismo"? Possivelmente "Instabilidade"... Boh! Não me convém adesso... Mas, e essa palavra realmente me definiria, em todas as minhas idiossincrasias imanentes a uma representante da espécie humana? Lá vamos nós de novo com essa necessidade de ter de rotular as coisas e/ou as pessoas, né?

Essa idéia de precisar estar em determinando grupo... essa idéia antiga, inculcada em nosso cérebro por questões antropológicas, dentre outras, talvez seja este um problema. Ou "O problema". As pessoas, por medo de serem expostas, apontadas, rotuladas, ficam fazendo jogo do "mané sem braço", se diluindo entre um e outro grupo social no qual somos obrigadas a conviver ao longo da vida. Nada contra isso, a priori, porque também participo de diferentes grupos sociais e é necessária uma adequação. O que não faço, embora devesse, é ir me diluindo nesses grupos, ir me metamorfoseando, de acordo com as necessidades "do mercado" de amigos, do trabalho, da igreja, "mercado familiar", entre outros. Eu até entendo as pessoas: é difícil ser vista como "diferente"... E olhem, nem sou, aparentemente, diferente; não estou naqueles grupos rotineiramente apontados ("nova era", "hippie", "patricinha", "roqueira", etc.). Mas, talvez por isto mesmo, não estou em um grupo nenhum. Talvez esteja, em uma visão superficial, no grupo das "residentes ou ex-residentes", ou "enfermeiras de Surubim", ou sei lá o quê... Mas não me sinto não!

Tô lembrando, falando assim, do dia em que, na terapia, falei para Dr. Ari (ai que saudade de Dr. Ari e de Verinha... ai ai ai... nessa hora dá vontade de voltar à terapia)... sim, falei pra Dr. Ari como me sentia, naquele momento, e, para descrevê-lo, eu usei uma frase de Tabacaria: "Dr. Ari, eu me sinto, como diria Álvaro de Campos, 'como se não tivesse irmandade com as coisas'". Ele me olha com uma cara atônita, aquela cara que os psiquiatras devem fazer quando suspeitam de uma tragédia iminente, e me disse, pausademente: "O que você quer dizer com isso?" hehehehe... Não posso conter o riso ao lembrar, porque é engraçado que é assim mesmo como me sinto, mas não estou na linha tênue enntre a lucidez e a insanidade não! É que é isto mesmo. Esse sentimento de pertencimento não está em mim há já um bocado de tempo, o que é bom, pois endossa a minha independência, e é ruim também, porque me deixa com a sensação de não ser compreendida... Vixe! Nem mesmo sei como comecei a escrever isto, e deve ser um saco pra quem lê. Mas, este blog, o primeiro papel dele, e primordial, é que eu fale o que quero, como quero e na ordem que quero (este último ponto nem sempre seguido à risca). Portanto, sou livre para dizer bobagens ou não! E também não posso estigmatizar o que falo "bobagens" - se fossem bobagens eu não estaria escrevendo...

Mas é difícil ser o que se quer ser... Dá trabalho! Você aposta muito! E assusta. Tô lembrando do que um amigo me disse, há não muito tempo atrás: "Mulher inteligente dá trabalho!". Não estou aqui querendo me autoproclamar inteligente, embora também não vou me valer de falsa modéstia e dizer que não me acho, etc... Mas, de repente, é isso mesmo, amigo! De repente, você tem razão, porque se pensamos, questionamos; se questionamos, somos inoportunos - ao menos eventualmente; se somos inoportunos, incomodados; se incomodamos, é melhor que estejamos distantes. Então, em uma seqüência lógica, "os anencéfalos conquistarão o mundo!"

Beijinhos a todos...


Escrito por Fê Colares às 16h45
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A frase "Tutto il mondo é paese" ("Todo o mundo é um país") é um ditado italiano, pra explicar as afinidades das pessoas, independentemente do local de onde são, onde estão. Entretanto, muitas pessoas preferem colocá-la ao contrário, "Ogni paese è il mondo" ("Cada país é o mundo"), o que seria praticamente a mesma coisa, mas com uma certa particularidade...
Isto porque o engrandecimento, a visão para o diferente, começa por si mesmo, na medida que você se permite conviver realmente com o outro, com o diferente. Não é uma coisa fácil, mas é enriquecedora.
Lembrei agora de um filme estupendo:

"... Eu era um estrangeiro entre estrangeiros. Por que estava lá? Eu não sabia. Nunca soube porque estava onde estava. Deve ser típico.

(...)

Eu sou todos eles.
Não sou uma. Mas muitas. Sou tudo. Sou uma bagunça..."

O Albergue Espanhol

Quem me conhece sabe que o filme acima, de onde extirpei esta frase, se tornou um dos meus preferidos, bem como a sua continuação, o também maravilhoso, "Bonecas Russas". Mas, o que isto tem a ver com viver com o título desta postagem?
Bem, quem viu o filme sabe que fala da convivência entre estudantes de várias nacionalidades, em Barcelona. Eu não vivo em Barcelona, é em Surubim mesmo, há apenas 130 km de Recife, mas vivo com pessoas que, embora sendo do mesmo país, são tão diferentes de mim, em tantos aspectos, e, ao mesmo tempo, são tão iguais...
Essa semana um amigo meu - que, por sinal, conheci graças a este blog... Pois bem! Esse meu amigo me questionou como seria viver em uma casa com mais sete mulheres. Eu, respondi que era normal. E, realmente, é normal. Talvez porque eu já tenha tido essa experiência, por um ano, há alguns anos atrás; talvez porque eu sei que possivelmente vou viver isto por ainda um tempo (não necessariamente na mesma conjuntura, mas sei que viverei!). Bem, talvez por isto tudo eu consiga ter uma relação harmoniosa com esta experiência. E, certamente, por isto mesmo, "O Albergue Espanhol" é, sem titubear, um dos melhores filmes da minha vida. Por sinal, passei na casa para duas das minha colegas verem e elas ODIARAM. Só aí já vemos a diferenciação de gostos... E isso é importante para o engrandecimento como pessoa.
É importante para mim, para que eu saiba respeitar os pontos de vista diversos... É assim que exercitamos a tolerância. É assim que deixamos de fazer acepção de pessoas. É assim que mesmo torcendo o nariz para determinadas coisas, aprendemos a abstraí-las...
Não estou aqui para pontuar pontos legais e pontos negativos sobre a vivência em uma "república". Cada experiência é única e não me valerei de tirania, falando da minha realidade de acordo com meu ponto de vista. Quero apenas dizer que, se possível, vivam isto! Se puderem ir a Barcelona, a Roma, a Londres, a qualquer cidade cosmopolita e conhecer culturas diferentes, melhor! Mas, se não puderem, vivenciem isto aqui, na sua cidade, buscando diversificação nas relações, procurando conversar com o outro - talvez até aquele outro já conhecido, mas que mudou... Aí sim você se aperceberá que, como diria Cristóvão Colombo, ""omnia munda mundis", ou seja, "Tutto è mondo per chi è mondo" ("Tudo é mundo para quem é mundo").
Buona notte a tutti!!!





Escrito por Fê Colares às 22h07
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