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Tudo isso, por amor?

Ele vai casar. No proximo dia 26. Ele vai casar e ainda tem coragem de comentar comigo que esta nervoso. Que deu um jeito nos dentes do pai (ele é dentista), na semana passada, e que os pais estao ansiosos, e que ele parece um menino assustado. Tà morrendo de medo. Embora namore hà nove anos. Embora acredite que é a mulher certa. Mas ele titubeou...titubeou, porque tinha medo de descobrir que "ela nao era mesmo a mulher certa" - palavras dele. Titubeou, porque (sempre com suas palavras) de repente, ele poderia me ver, e seria como ele sabia que seria: maravilhoso, màgico, até porque sabe como o diferente maqueia tudo, nao?

Entao ele disse que, se me visse, ele iria ter dùvidas, mas sabia que mesmo com as dùvidas ele iria casar, porque nao é de se jogar. Porque nao é de arriscar. Porque nao faria jamais bungee jump. Porque a estabilidade é a coisa que ele mais preserva. Porque sabia que aqui, profissionalmente, eu jamais seria como ele me conheceu, e que, me conhecendo, sabia que eu nao ia me estagnar, aceitar estar aqui, e ele, por sua vez, nao teria coragem de ir "a terras desconhecidas".  Entao, estariamos em uma encruzilhada. E ele, lembrem, nao gosta de encruzilhadas. Nao gosta nem de palavras cruzadas. Nao gosta de vidas cruzadas. Gosta de viajar uma vez ao ano a Sardegna, de nadar na piscina do clube no verao, gosta de rever os pacientes que sempre tornam ao consultòrio, de ir à missa em datas cristalizadas ao longo do ano, do seu carro ultimo modelo, do status, da sua vida faticosa - ou, como cantariam, "complicada e perfeitinha", da hipocrisia que rodeia algumas relaçoes sociais...

Disse que nao a deixaria, mas estaria mal por anos, pensando como seria se tivesse ficado comigo.

Apesar do medo, ele, ao tomar essa decisao, se sente pronto a "mudar" a vida, a mudar a casa... a fazer feira, conta no fim do mes... a ter uma casa na praia, um filho, um cachorro. A enfrentar sogra, cunhado, sobrinho, parente, natal, dor-de-cabeça recorrente. Tudo isso, por amor.

Eu sou o diferente. Eu sou o que ele quer e o que ele teme. Eu sou a representaçao de tudo o que ele deseja, mas nao tem coragem de assumir. Eu sou o que ele se pergunta todas as manhas "...e se?".

Entao, se ve que apesar de tempos e tempos de conversas que permeavam da crise do ecossistema global até as elucidaçoes psicològicas contidas na mitologia grega, passando, claro, por assuntos de saude (como as vàrias discussoes sobre exames, doenças, sinais e sintomas, entre outros assuntos chatos que os profissionais da saude teimam em falar)... apesar disso, o diferente é diferente, e sò. Como cantaria Caetano, "... é que Narciso acha feio o que nao é espelho". E o espelho, nesse caso, é ela.

Eu o conheço como ele se mostrou. Ele me conhece como eu me fiz. Mas, talvez por isso mesmo, talvez conheçamos um ao outro mais do que muita gente que faz parte do nosso dia-a-dia.

E assim a roda gira.

"...la voglia di non ragionare, ma vivere sempre disposto a rischiare e ridere...riderne...

Semplicemente"

 

 

 



Escrito por Fê Colares às 15h08
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